O temor dos maricaenses pelas lutas por liberdade
Em 1830, o pânico se espalhou em Maricá com notícias de jornais e cartas de Itaboraí. Os relatos indicavam que escravizados da região e negros já libertos no Rio de Janeiro, liderados por um homem chamado Andrade, dono de uma quitanda na Rua do Rosário, estavam planejando uma revolta. O boato gerou grande tensão entre os moradores das áreas urbanas de Maricá.
A Revolta dos Malês e o medo na província
Essa agitação social se intensificou após a Revolta dos Malês, que ocorreu em Salvador, Bahia, entre 25 e 27 de janeiro de 1835. Essa rebelião, liderada por africanos, principalmente de etnias hauçá e nagô, de religião islâmica, foi a maior demonstração de luta por liberdade da história do Brasil.
O levante baiano assustou não só a elite, mas também os brasileiros comuns, especialmente os que moravam no interior. O medo aumentou quando a revolta em Salvador inspirou outros atos de insurreição em cidades da Província Fluminense, como Niterói e Itaboraí, que ficavam perto de Maricá.
A escravidão diferenciada na fazenda dos Beneditinos:
As fazendas dos monges beneditinos tinham um tratamento diferente para os escravizados, em comparação com outras propriedades rurais. Era comum que os escravizados dessas fazendas trabalhassem por tarefa e tivessem folga nos feriados, sábados e domingos. Nesses dias, eles podiam cultivar suas próprias roças para o consumo da família, e o excedente era trocado ou vendido. Essas transações aconteciam entre escravizados beneditinos, de fazendas vizinhas, de quilombos e até com a própria fazenda que comprava a produção dos escravizados.
Isso é comprovado pelo trabalho de Flávio Gomes dos Santos. Em 1839, um escravizado chamado Severino e sua esposa, que trabalhavam na fazenda de Maricá, foram transferidos para a fazenda de Iguaçu (hoje Nova Iguaçu). Eles foram indenizados pela roça de mandioca que haviam plantado. Dois anos depois, outro escravizado, Simião, vendeu dois sacos de milho para os religiosos de Maricá antes de se mudar para a mesma fazenda na Baixada Fluminense.
Família e vida dos escravizados beneditinos
Nas fazendas beneditinas, as escravas grávidas recebiam alimentação especial e alguns locais tinham até enfermarias para tratar os doentes. Em Campos, as famílias de escravizados moravam em senzalas, onde pais, mães, avós, filhos e netos viviam próximos uns dos outros.
Viajantes europeus como Henry Koster também observaram essas peculiaridades. Koster notou que os casamentos eram incentivados, e os jovens, a partir dos 14 anos (para as moças) e 17 (para os rapazes), podiam se casar. Após o casamento, eles pediam para começar a trabalhar cedo para poderem ter suas próprias roças. Koster também relatou que, na fazenda de Jaguaribe, em Pernambuco, as crianças pareciam saudáveis e só começavam a trabalhar efetivamente entre os dez e doze anos, em tarefas que elas próprias escolhiam.
Por outro lado, o viajante John Luccok visitou a fazenda beneditina em Maricá e teve uma visão diferente. Ele descreveu que os escravizados viviam em cabanas de barro, e as crianças, que rolavam no chão, pareciam magras, sujas e doentes.
Alforria por laços familiares
Uma característica interessante na luta pela liberdade era a criação de redes familiares para comprar a alforria. Um escravizado que já era livre financiava a liberdade de um parente ainda escravizado, e este, ao ser liberto, se sentia na obrigação de ajudar outro familiar.
Isso era comum entre os escravizados beneditinos, inclusive em Maricá. Um exemplo é a história de Benvinda, uma mulher parda do Mosteiro de São Bento, que trabalhava na fazenda de Maricá. Sua filha, Mafalda, estava na fazenda de Campos. Em junho de 1856, Benvinda conseguiu juntar 800 réis, o suficiente para comprar sua própria alforria. Três anos depois, ela pagou 600 réis para libertar a filha, dando continuidade a essa rede de solidariedade.
O destino dos escravizados do navio negreiro aprisionado em Maricá
Após a aprovação da Lei Euzébio de Queiroz, em 1831, que proibia o tráfico de escravizados, os traficantes, para fugir da fiscalização, passaram a usar praias desertas para desembarcar os escravizados e levá-los para as grandes plantações de café. Cidades como Maricá, Cabo Frio e Angra dos Reis se tornaram rotas para essa prática ilegal.
A escravidão e o tráfico de negros em larga escala começaram na região muito antes. Depois que Portugal proibiu a pesca no litoral de Campos a Maricá, por volta de 1617, a área foi dedicada à agricultura e à pecuária. Como resultado, os colonizadores de Maricá e portugueses que chegavam ao Brasil usaram o tráfico de escravizados para obter mão de obra para suas fazendas.
Mesmo com a proibição do tráfico de escravizados no Brasil em 1850, o desembarque clandestino continuou. Traficantes como José Gonçalves e os irmãos Souza Breves, que também atuavam na Região dos Lagos, se tornaram figuras importantes nesse comércio. No entanto, já existia um grande número de escravizados em Maricá antes disso, o que é comprovado pela existência de quilombos na região.
Desde 1808, a Inglaterra vinha atuando para acabar com o tráfico de escravizados para as nações americanas. Eles assinaram tratados e, muitas vezes, capturavam navios de escravizados. Essa estratégia não só enfraqueceu a escravidão no Brasil, como também garantia mão de obra para as colônias britânicas no Caribe, onde a escravidão já havia sido abolida em 1834. Os escravizados resgatados eram transformados em trabalhadores contratados.
O caso do navio "Flor de Luanda"
Um exemplo dessa ação aconteceu em abril de 1838, quando o navio negreiro "Flor de Luanda" foi capturado em águas de Maricá pelo navio britânico H.M.S. Hover. O navio de escravizados levava 289 pessoas. Embora a localização exata da captura seja discutida (alguns dizem que foi perto das Ilhas Maricá em Itaipuaçu, outros perto de um porto em Ponta Negra), o navio foi levado para o porto do Rio de Janeiro.
O caso gerou grande hostilidade da população. As autoridades brasileiras tiveram que enviar uma guarda armada para evitar que os prisioneiros fossem resgatados. Apesar da gravidade do caso, os traficantes do "Flor de Luanda" não foram condenados pela Comissão Mista (formada por Brasil e Inglaterra), talvez por serem portugueses.
Enquanto as negociações entre as autoridades brasileiras, portuguesas e britânicas se arrastavam, as condições a bordo do navio pioravam. Em 1838, o representante britânico W.G. Ovseley decidiu colocar os africanos como aprendizes na Santa Casa de Misericórdia e em casas de ingleses no Rio de Janeiro. O acordo determinava que os empregadores deviam treiná-los, alimentá-los e vesti-los por sete anos, mas os africanos ainda podiam ser devolvidos.
Em 1846, os escravizados sobreviventes do "Flor de Luanda" foram finalmente libertados. Dos 85 que estavam na Santa Casa, apenas 71 sobreviveram. Dos que estavam com particulares, somente 34 restaram. Todos receberam uma certidão de emancipação do Cônsul Britânico no Rio de Janeiro. No evento, as autoridades inglesas ofereceram aos negros a opção de se tornarem trabalhadores livres nas colônias britânicas no Caribe ou de permanecerem no Brasil, mas sem a proteção do governo britânico.
Apenas 20 dos que estavam na Santa Casa e 9 dos que estavam com particulares aceitaram a oferta de transporte gratuito para o Caribe. Os 77 africanos que ficaram no Brasil receberam 12 mil réis por cada ano de serviço prestado. Esse gesto demonstrou a diferença no tratamento dado aos africanos libertos entre o Império Britânico e o Império Brasileiro.
Escravizados comerciantes e mascates:
Em certos municípios, como Maricá, observava-se uma situação incomum no contexto da escravidão. Alguns indivíduos escravizados conseguiam atuar como comerciantes de forma independente, sem a supervisão direta de seus senhores. De maneira discreta, estabeleciam pequenos pontos de venda onde realizavam transações comerciais. Essa prática, ao que tudo indica, era facilitada por relações com comunidades quilombolas, que trocavam o excedente de suas colheitas por produtos essenciais como sal e açúcar.
A partir da segunda década do século XIX, esse tipo de autonomia entre pessoas escravizadas passou a se tornar mais recorrente, especialmente nas áreas urbanas, contribuindo para a formação das dinâmicas sociais do nascente Estado brasileiro. Era comum encontrar cativos vivendo em locais distintos dos seus proprietários. O governo autorizava que os senhores alugassem seus escravizados para outras pessoas, tanto no campo quanto na cidade.
Além disso, mediante um simples registro policial, era possível formalizar um termo de fiança que permitia ao escravizado se deslocar para outras localidades com o objetivo de exercer atividades diferentes dos habituais. Um exemplo disso é o caso de Manoel Joaquim, escravizado que, com a autorização e fiança de seu senhor — residente na Rua do Sacramento, no Rio de Janeiro — recebeu permissão em 1º de fevereiro de 1825 para trabalhar como mascate na Vila de Santa Maria de Maricá.
Antes não viver do que ser escravizado
A busca pela liberdade da escravidão podia se manifestar de diferentes formas, seja na luta física ou espiritual. Em Maricá, um ato extremo de resistência foi registrado, pouco antes da abolição.
Em 6 de janeiro de 1885, o jornal "O Brasil" noticiou um trágico evento. Um escravizado, que estava detido em Niterói, foi levado pelo Sr. Valério Gomes Mattos para sua casa em Cassorotiba, Maricá. Ao se aproximar da residência, o homem se jogou em um açude, e não foi possível salvá-lo, morrendo afogado.
Outra história conta que Charles Darwin, durante sua passagem pela fazenda Itaocaia, registrou o suicídio de uma mulher idosa que preferiu a morte à perda de sua liberdade, enquanto autoridades portuguesas tentavam recapturar quilombolas fugitivos da fazenda onde ele estava hospedado.
Duas mulheres maricaenses no Zungu:
O Rio de Janeiro do século XIX, sede do Império, era uma cidade de paisagem agitada, cheia de negros que circulavam pelas ruas e becos, exercendo várias atividades. Entre eles, destacavam-se as "Maria Angu", mulheres que vendiam comida de rua, especialmente o que hoje conhecemos como "angu à baiana". Geralmente, essas mulheres eram escravizadas de ganho (que trabalhavam para o seu dono e repassavam parte do lucro) ou alforriadas.
O angu não era consumido pela aristocracia, que tinha hábitos alimentares mais elitizados. O público consumidor era mais diversos: escravizados de ganho, escravizados de aluguel, fugitivos, boêmios, malandros e outros marginalizados da sociedade. Com o tempo, as "anguseiras" que prosperavam se estabeleciam em quitandas, dando origem aos "zungus".
Os zungus eram moradias coletivas, divididas em pequenos quartos que abrigavam uma variedade de pessoas: fugitivos, desocupados, boêmios, capoeiristas, prostitutas e outros marginalizados. As autoridades da época reprimiam esses locais por considerá-los "clandestinos" e por atividades ilegais como prostituição e cultos afro-brasileiros. No entanto, o que mais preocupava as autoridades eram as redes de comunicação que existiam entre os quilombos e os escravizados urbanos.
Dois exemplos dessa rede de resistência são Carminda e sua irmã Amélia Maria da Glória, ambas nascidas em Maricá. A Gazeta de Notícias, em 15 de novembro de 1883, relatou a prisão de sete mulheres de um zungu, incluindo Carminda, que era engomadeira. Apesar de ser uma trabalhadora, ela foi acusada de "vagabunda e desordeira". Amélia, com apenas 17 anos, provavelmente a acompanhava.
A trajetória das irmãs sugere a existência de uma rede subterrânea de movimentos organizados que conectava os quilombos e os zungus, passando por Maricá, Niterói e a capital. Os quilombolas de Maricá, sem dúvida, eram agentes importantes nessa rede. As duas irmãs, possivelmente ex-escravizadas, garantiram sua "liberdade provisória" por meio do trabalho no zungu e, assim, conseguiram sair de Maricá e sobreviver na capital do Império.
Resistência e greve de escravizados
Este texto trata de como os escravizados nascidos ou que viveram em Maricá resistiam à escravidão. Uma das táticas mais comuns dos proprietários de escravizados para intimidá-los e impedi-los de fugir ou se rebelar era ameaçá-los de vendê-los para as regiões de Friburgo e Cantagalo, onde o tratamento era conhecido por ser brutal.
O historiador Eduardo Rodrigues investigou o caso de João Marambaia, um escravizado da Fazenda Inoã. O dono, Vicente Adrião Ferraz, era um fazendeiro cruel que ameaçava queimar os escravizados desobedientes em fornos. Em 1875, ele ordenou que o feitor fizesse isso com Marambaia. Quando o escravizado estava amarrado, pronto para ser jogado no forno, várias pessoas o salvaram, convencendo o fazendeiro de que seria mais lucrativo vendê-lo para Cantagalo, um lugar onde a crueldade contra escravizados era extrema. Por volta de 1888, já com a escravidão abolida, Marambaia retornou a Inoã, onde se tornou um grande contestador, dando muito trabalho à polícia de Maricá.
O negro Silvestre Crioulo
Em 1850, na Fazenda Ponte das Tábuas, em Nova Friburgo, escravizados de diferentes partes do Brasil, incluindo o maricaense Silvestre Crioulo, entraram em greve por cerca de três meses. Eles se recusaram a voltar ao trabalho, a menos que o administrador da fazenda, João Antônio da Silva Ferreira, fosse demitido. Silvestre, que já trabalhava na fazenda por seis anos, fugiu com outros escravizados por causa dos maus-tratos e ameaças do administrador. Durante a fuga, eles se esconderam na mata da propriedade e se alimentaram de milho e abóbora que pegavam da roça.
Em 28 de maio de 1850, Silvestre e seus companheiros foram condenados à prisão perpétua com trabalhos forçados. No entanto, o proprietário da fazenda, o Comendador Bernardo Boa Aventura Maciel, recorreu da sentença, e os réus foram soltos. A pesquisa não encontrou registros de que o processo tenha sido revisto.
A história de Silvestre Crioulo mostra que os escravizados de Maricá não apenas resistiam, mas também usavam estratégias de negociação, exigindo respeito e melhores condições. Ao se recusar a trabalhar e se refugiar na mata, ele e seus companheiros desafiaram a visão de que os escravizados não tinham para onde ir, mostrando que a resistência era uma forma de luta por liberdade e dignidade.
O debate abolicionista
A partir de 1881, a sete anos da Lei Áurea, o debate sobre a abolição da escravidão se intensificou no Brasil. A estrutura socioeconômica de Maricá, baseada no trabalho escravizado, não ficou de fora. Jornais da época mostravam a tensão política: os jornais do Partido Conservador criticavam o Partido Liberal por propor a reforma da escravidão, classificando a iniciativa como "cínica e irresponsável".
Por outro lado, em 29 de janeiro de 1883, o jornal "A Folha" publicou uma notícia favorável à causa abolicionista. Uma comissão do "Fundo de Emancipação" em Maricá finalizou a classificação de escravizados para a libertação. Dias depois, outro jornal informou que o coletor de Maricá, Joaquim Paulo Ribeiro De Almeida, foi autorizado a pagar indenizações a 13 proprietários de escravizados libertos. O coletor conseguiu que eles aceitassem um valor abaixo do esperado, totalizando nove mil e novecentos e cinquenta réis.
Essas ações do governo talvez tenham encorajado alguns moradores de Maricá a libertar seus escravizados por conta própria. Um exemplo é o Dr. Francisco de Azevedo, que em 2 de dezembro de 1883 concedeu a alforria de sua escravizada Josefa.
4. A CONTEMPORANEIDADE DE MARICÁ
Maricá é lar de várias comunidades tradicionais, incluindo duas aldeias indígenas Guarani Mbya que se instalaram na região nos últimos dez anos. A Aldeia Mata Verde Bonita (Tekoa Ka'Aguy Hovy Porã), em São José do Imbassaí, tem cerca de 200 indígenas, enquanto a Aldeia Céu Azul (Tekoa Ará Hovy), em Itaipuaçu, tem aproximadamente 45 habitantes.
A cidade também abriga diversas associações de artesãos e agricultores familiares. Outro destaque é a colônia de pescadores de Zacarias, que preserva suas tradições por mais de dois séculos. Os pescadores de Zacarias mantêm o ofício de confeccionar redes e canoas, e possuem um vasto conhecimento sobre a fauna e a flora locais.
Artesanato Guarani: produzido pelos indígenas das Aldeias Tekoa Ka'Aguy Hovy Porã e Tekoa Ara Hovy, utiliza materiais naturais como sementes, frutos, penas, madeiras e fibras vegetais. Inclui cestos coloridos, brincos, colares, braceletes, apitos, brinquedos, pau-de-chuva, esculturas de animais e instrumentos musicais.
A herança Tupinambá pode ser percebida no presente, por meio dos nomes das cidades e de alguns dos seus bairros, originários de características marcantes da fauna e da flora. São exemplos: Araçatiba – fartura de araçás, Ubatiba – fartura de cana do rio ou cana flexa, Itaipuaçu – pedra grande que arrebenta a água, Inoã – encurtar, afunilar.
A bandeira de Maricá
A bandeira da cidade foi criada no ano de 1964. É um símbolo visual que representa a cidade e possui as cores vermelha, branca e azul. Cada uma dessas cores detém um significado. O vermelho significa o orgulho e a dignidade do povo, o azul exprime a confiança do povo no progresso da cidade e o branco simboliza a paz. A bandeira ainda é representada por quatro estrelas que representam os quatro distritos da cidade.
O carnaval em Maricá
O carnaval de Maricá é uma celebração tradicional marcada pela presença de blocos e escolas de samba. A folia na cidade tem raízes antigas: na década de 1920, blocos como o "Jacaré" e o "Tira-teima" já animavam a população com marchinhas.
Nos anos 1970, a rivalidade entre as classes sociais e os grupos políticos locais se manifestava nos desfiles dos blocos "Esferinhas" e "Antiga Amizade". Mais recentemente, a história carnavalesca de Maricá foi moldada por agremiações como o Bloco da Gabriela, Gaviões de Itaipuaçu, e o Tromba Nervosa, além do já extinto Bloco do Carvão.
Os desfiles de escolas de samba, com a participação de agremiações como o G.R.E.S. Tradição de Maricá, G.R.E.S. Flor do Imbassaí e G.R.E.S. Unidos do Saco das Flores, aconteciam nas ruas centrais da cidade entre 1975 e 2008.
Em 2015, foi criada a Grêmio Recreativo e Escola de Samba União de Maricá. A iniciativa, do então prefeito Washington Quaquá, com o falecido presidente Mauro Alemão, tinha o objetivo de unir o carnaval da cidade em uma única escola que a representasse nos desfiles do Rio de Janeiro. As cores da escola são vermelho, ouro e branco.
Belezas Naturais e Geográficas
Maricá é considerada um paraíso natural devido ao seu clima tropical litorâneo e 46 km de litoral, que incluem praias, lagunas, ilhas, rios, cachoeiras, serras, áreas florestadas e restingas.
A paisagem é marcada por maciços costeiros, com serras como Calaboca, Lagarto, Silvado, Espraiado e Tiririca. O ponto mais alto do município é o Pico do Mato Grosso, com 890 metros. A cidade possui um grande sistema lagunar, compreendendo as lagunas de Maricá (Lago Grande), da Barra, de Guarapina (Ponta Negra), do Padre e de Jaconé, todas conectadas ao mar por canais.
Suas praias oceânicas, como Jaconé, Ponta Negra, Barra de Maricá, do Francês e Itaipuaçu, são muito procuradas. O relevo diversificado da região é ideal para esportes radicais como voo livre, trekking e mountain bike. A Serra da Tiririca, que faz divisa com Niterói, é um parque estadual que preserva um importante trecho da Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos do planeta, caracterizado por florestas densas e fechadas.
A paisagem de Maricá é marcada por formações geológicas impressionantes e ecossistemas variados. A Pedra do Elefante, por exemplo, é o ponto mais alto do Parque Estadual da Serra da Tiririca, com 412 metros. Vista da Praia do Recanto, em Itaipuaçu, sua rocha se assemelha à cabeça de um elefante.
O Pico da Lagoinha, com 879 metros, é o segundo ponto mais alto da cidade. Localizado na Serra do Espraiado, na divisa com Tanguá e Rio Bonito, ele faz parte do Refúgio da Vida Silvestre. Em sua trilha, a 600 metros de altitude, há uma cachoeira de águas cristalinas.
Os tabuleiros e falésias de Maricá são resultado da erosão. Os tabuleiros, como os do Morro do Mololô, são platôs de argila com encostas íngremes. Já as falésias, como as encontradas na Ilha Cardosa e na Ponta do Fundão, mostram que o mar cobria essas áreas no passado, formando a antiga Baía de Maricá.
As Ilhas de Maricá são um arquipélago de duas ilhas e três ilhotas. Elas são, na verdade, os picos de uma cadeia de montanhas submersas que se formaram com as variações do nível do mar nos últimos 10 mil anos.
Maricá possui uma rica biodiversidade, com ecossistemas que incluem rios, córregos, ilhas oceânicas e, principalmente, a Mata Atlântica, que cobre as áreas de serra e restinga.
O sistema lagunar de Maricá-Guarapina, conhecido como Lagoa de Maricá, na verdade é um conjunto de quatro lagoas interligadas que somam cerca de 34 km². A formação desse sistema ocorreu há milhares de anos, quando a oscilação do nível do mar criou restingas que represaram a antiga Baía de Maricá. A Lagoa de Maricá (Lago Grande) serve como um berçário natural para peixes e camarões, com vegetação que oferece abrigo e alimento para a vida aquática.
A Colônia de Pescadores de Zacarias é uma comunidade tradicional com mais de 200 anos de história, localizada às margens da Lagoa de Maricá. Com cerca de 100 pescadores, a comunidade mantém vivas práticas como a confecção de redes e canoas, e possui um vasto conhecimento sobre a natureza local. A tradição e o conhecimento dessas comunidades são essenciais para a conservação ambiental, e seus direitos de pesca são protegidos por lei.
A festa de Nossa Senhora do Amparo
A Festa de Nossa Senhora do Amparo, celebrada tradicionalmente em 15 de agosto, é uma tradição de longa data na cidade. No século 19, a celebração atraía pessoas de municípios vizinhos, que chegavam de trem pela Estrada de Ferro Maricá.
As festividades incluíam uma novena, uma missa solene, leilões, apresentações de bandas e shows no coreto que ficava no largo da Igreja Matriz. A cidade se enfeitava para receber os fiéis e peregrinos, que eram convidados por meio dos jornais da época.
A construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo começou em 8 de dezembro de 1788, com o lançamento da pedra fundamental pelo padre Vicente Ferreira Noronha. A primeira missa na igreja foi realizada em 15 de agosto de 1802, no Dia da Padroeira, marcando a inauguração do local.
5. PERSONALIDADES DE MARICÁ
Mestre Pindorama
Para Mestre Pindorama, um artista de 68 anos que vive em Inoã, Maricá, a vida só faz sentido quando é compartilhada com os outros. Ele nasceu em Mesquita, na Baixada Fluminense, e sua chegada ao mundo foi um evento especial. Um bebê de 6 quilos, ele foi assistido pela parteira Dona Maria Lontra, enquanto a vizinhança inteira se unia em oração.
Na juventude, Pindorama (que na época se chamava Fernandinho) buscou conhecimento lendo jornais e obras de pensadores como Karl Marx. Nos anos 1970, ele se tornou um ativista dedicado, lutando pela democracia e pela justiça social. Por sua inteligência e sua visão sobre questões de raça e classe, ele era admirado, defendendo sempre a igualdade de oportunidades e a luta contra a opressão.
A arte e a militância sempre caminharam juntas em sua vida. A música, sua paixão de infância, o transformou em Mestre Pindorama, um nome que reflete sua singularidade. A inspiração veio de seu pai, Seu Fernando, um grande incentivador da cultura. Hoje, Mestre Pindorama utiliza a pintura e a música para expressar sua visão de mundo, promovendo o bem-estar coletivo e a igualdade. Suas composições frequentemente criticam a exploração e o preconceito social.
Pindorama é um artista completo, atuando em diversas áreas como cinema, música, escrita, pintura, dança e teatro. Para ele, a arte é uma ferramenta de libertação. Morador de Maricá há 37 anos, Mestre Pindorama é considerado uma memória viva das comunidades por onde passou. Ele acredita que a arte só existe por causa das pessoas e resume sua trajetória como o "milagre da vida".
Zuleica (Rezadeira, 67 anos)
Zuleica, moradora do Caxito, Maricá, tem o dom da mediunidade desde criança. Graças a essa habilidade, ela recebe mensagens de "amigos invisíveis" para ajudar e curar pessoas, baseando-se na crença de que a vida continua após a morte. Ela destaca a importância de respeitar e valorizar todas as religiões.
A vida de Zuleica começou na roça, sob os cuidados de sua avó, Dona Carmelita, uma respeitada parteira e curandeira. Zuleica a acompanhava em partos e aprendeu com ela a arte de trazer vidas ao mundo e de curar com ervas. Em um episódio marcante, aos 8 meses, ela foi dada como morta, mas um "milagre" a trouxe de volta à vida.
Por volta dos 10 ou 11 anos, Zuleica teve uma visão que a amedrontou. Foi a partir daí que os espíritos começaram a se manifestar para ela. Desde então, ela passou a rezar por sua avó e irmãs, iniciando sua jornada como curandeira, usando folhas de vassourinha.
Zuleica, que considerava sua avó como uma mãe, aprendeu com ela várias orações e tratamentos. Ela domina a cura da "espinhela caída" com uma bebida de ingredientes naturais e o tratamento de erisipela com cinza de aroeira e azeite. Também sabe curar o "cobreiro" com sumo de erva de bicho e enxofre, alertando que esse último é um processo rigoroso que exige jejum. Ela avisa, ainda, que o uso de ervas na cabeça é arriscado, pois a considera uma parte sagrada do corpo.
Aos 15 anos, Zuleica se casou e se mudou para Maricá. Ela acredita que a fé é essencial para a cura e pode transformar até um simples copo de água em um remédio. Embora seus filhos e irmãos não tenham seguido seus passos, eles respeitam suas escolhas.
Zuleica sabe que seu trabalho é cansativo e pouco valorizado atualmente, mas ela continua sendo um ponto de apoio para quem precisa de ajuda, especialmente em comunidades que não têm fácil acesso à medicina. Para ela, a união é fundamental, pois "se espalhar, se perde". Ela segue em sua missão de curar e rezar, preservando a sabedoria que herdou de sua avó.
Dico (Mestre de Capoeira e Artesão, 69 anos)
Para Mestre Dico, morador do Flamengo, o verdadeiro progresso vem do respeito e do aprendizado com as gerações passadas. Ele vê a capoeira como uma arte de resistência que surgiu durante o período de escravidão no Brasil, quando muitos africanos foram trazidos à força. Dico se inspira em figuras como Zumbi dos Palmares, um líder que se tornou símbolo da luta contra a escravização.
Mestre Dico explica que os africanos escravizados usavam a capoeira, o maculelê e o samba de roda não só para se defender, mas também para manter sua cultura viva. Para ele, a ancestralidade é fundamental na capoeira. Ele conta que seus avós vieram da Guiné, e foi honrando a memória e os ensinamentos deles que ele se tornou mestre.
Mestre Dico começou a praticar capoeira na Associação de Capoeira Josias da Silva, em Nova Iguaçu. Em 1984, ele se mudou para Maricá e rapidamente conquistou respeito por seu trabalho, que valoriza o diálogo e o respeito. Em 2005, ele recebeu o título de mestre.
Em 1986, Mestre Dico começou a dar aulas no quintal de casa, um espaço onde também se dançava jongo e maculelê. Seus alunos, descalços, aprendiam não só a técnica, destreza e equilíbrio da capoeira, mas também a tocar instrumentos como berimbau, atabaque e pandeiro. Foi durante uma aula noturna, ao ver a lua nascendo, que ele batizou seu grupo de "Filhos da Lua". Além de mestre de capoeira, Dico é artesão e desenhista. Ele mesmo criou o logotipo e as letras do grupo. Com seu trabalho, Mestre Dico deixou uma marca cultural importante em Maricá.
Niltinho (Agricultor, 72 anos)
Aos 72 anos, o agricultor Niltinho, do Espraiado, é um exemplo de honestidade e dedicação à agricultura. Sua vida no campo começou cedo em São José de Ubá, onde, com apenas 3 anos, ele já participava das atividades rurais, uma tradição familiar comum na época.
Com 5 anos, Niltinho já trabalhava em fazendas para ajudar a família, que não tinha como pagar seus estudos. Ele se lembra de longas e difíceis jornadas, muitas vezes resultando em ferimentos que só podiam ser tratados no fim do dia.
Aos 9, a perda do pai o obrigou a cuidar da mãe e das irmãs. Dois anos depois, ele foi trabalhar na fazenda de Abílio Carneiro, onde aprendeu lições importantes sobre finanças e conduta. A mãe de Niltinho também foi uma grande influência, ensinando-o a evitar vícios e a ser discreto. Ele permaneceu trabalhando para o filho de Abílio até os 45 anos.
A mudança para Maricá marcou um novo começo. Niltinho trabalhou como caseiro em Itaipuaçu e, aos 47 anos, teve sua primeira oportunidade de estudar, com a ajuda de seu irmão e de seus empregadores. Ele sente um carinho especial pela professora Rita, a quem credita o pouco que aprendeu. Quando ela se transferiu, ele desistiu da escola, lamentando não poder ter a mesma dedicação aos estudos que tinha ao trabalho.
Em Itaocaia Valley, Niltinho montou uma horta e fornecia produtos como tomates e hortaliças para pizzarias e mercados. Ele priorizava o cultivo sem agrotóxicos após uma experiência negativa com venenos agrícolas, que causaram doenças e mortes na comunidade. Essa experiência reforçou sua convicção de que "a plantação, quanto mais você cuida, mais ela fica bonita e mais ela produz".
Hoje, Niltinho mora em uma fazenda cedida pela prefeitura, um espaço que ele lutou para que pudesse ser usado por agricultores. Ele cultiva café, banana, aipim e até arroz, e demonstra um profundo conhecimento da natureza. Ele usa técnicas como cobrir o solo com folhas e galhos para manter a umidade. Ele teve um papel fundamental no resgate do aipim "Manuel Ribeiro", uma variedade de mandioca que já foi abundante na região.
Para Niltinho, a vida no campo é uma forma de viver com tranquilidade e conexão. Ele afirma que a vida e o trabalho foram seus maiores professores. Sua história é um tributo a todos os agricultores que, com seu trabalho e dedicação, colocam alimentos frescos e saudáveis em nossas mesas.
Washington Quaquá (Político)
Mais conhecido como Washington Quaquá, ele é um político e sociólogo brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores. Se tornou uma figura central na política de Maricá e do estado do Rio de Janeiro.
Nascido em São Gonçalo, Quaquá se mudou para Maricá ainda na infância. Ele iniciou sua carreira política no PT, disputando a prefeitura de Maricá pela primeira vez em 2004, mas foi em 2008 que se elegeu para o cargo. Ele foi reeleito em 2012, completando dois mandatos consecutivos.
Após sua gestão, Quaquá atuou como vice-presidente nacional do PT e foi eleito Deputado Federal em 2022. No entanto, em 2024, ele se candidatou novamente à prefeitura de Maricá e venceu com mais de 73% dos votos, assumindo o cargo pela terceira vez em 1º de janeiro de 2025.
Quaquá é reconhecido por implementar políticas sociais que transformaram a cidade de Maricá, principalmente a criação da Moeda Social Mumbuca e o programa de ônibus gratuitos ("Vermelhinhos"). Ele defende que essas iniciativas ajudam a economia local e melhoram a qualidade de vida da população.
Ele é visto por muitos de seus aliados como alguém que fala a "língua do povo" e defende um modelo de gestão que se tornou uma referência de políticas públicas sociais.
6. PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL:
O Farol de Ponta Negra, que começou a funcionar em 10 de maio de 1909, é um ponto crucial para a navegação segura na região. Além de sua importância para as embarcações, o local proporciona uma vista panorâmica deslumbrante, que se estende por todo o litoral de Maricá, de Ponta Negra a Itaipuaçu.
A Casa de Câmara e Cadeia de Maricá, hoje a Casa de Cultura e Museu Histórico, teve sua construção iniciada apenas em 1836, 22 anos após o Alvará de 1814 que criou a Vila de Santa Maria de Maricá. O projeto, finalizado em 1841, foi do engenheiro militar Júlio Frederico Koeler.
Um detalhe interessante da construção são os 26 degraus que separam a antiga cadeia (no andar de baixo) da antiga Câmara Municipal (no andar de cima), uma referência à data de fundação da vila. O prédio agora funciona como um museu, com um acervo que abrange a história de Maricá desde a pré-história até os dias de hoje.
A Fazenda Itaocaia, em Itaipuaçu, é uma das propriedades mais antigas de Maricá, com quase 400 anos. Em 1627, foi doada ao Mosteiro de São Bento por Diogo Martins Mourão e Francisca Serra, tornando-se um grande latifúndio beneditino por três séculos.
Na década de 1980, as terras foram divididas e deram origem ao loteamento Itaocaia Valley. O que restou da fazenda hoje é uma propriedade particular que ainda preserva a Casa Grande, a Capela de Nossa Senhora da Conceição, o antigo engenho e as ruínas da senzala.
Em 1832, o naturalista Charles Darwin visitou a fazenda e registrou informações importantes em seu diário. Em homenagem a essa visita, a exposição "Caminhos de Darwin" foi inaugurada em junho de 2022 na Casa Grande, exibindo suas pesquisas, trechos de seu diário, fósseis, rochas e peças históricas.
ARTESANATO LOCAL:
Maricá é um polo de artesãos e artistas que trabalham nos quatro distritos do município. Enquanto a arte é uma expressão de sentimentos e não busca lucro, o artesanato é uma habilidade que pode ser ensinada, reproduzida e vendida.
A prefeitura de Maricá incentiva o trabalho desses profissionais promovendo feiras, como a da Praça do Turismo. Os artesãos da cidade se destacam por seu talento e variedade, passando suas técnicas de geração em geração. Entre os tipos de artesanato mais conhecidos estão o de palha de taboa, o indígena Guarani e a Tapeçaria do Espraiado.
Artesanato de taboa
A taboa é uma planta aquática muito comum em Maricá, presente em canais e lagoas, e tem um papel importante na despoluição da água. A artesã Dona Benedita Rosa do Amparo Barros transforma essa planta em peças únicas. O processo envolve cortar, secar, raspar e trançar a palha, resultando em belas criações.
Artesanato Guarani
Produzido pelos indígenas das aldeias Tekoa Ka'Aguy Hovy Porã e Tekoa Ara Hovy, esse artesanato é feito com materiais naturais como sementes, penas, madeira e fibras vegetais. Os produtos incluem cestos coloridos, colares, brincos, esculturas de animais, instrumentos musicais e outros objetos.
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